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Entrevista com mago Levitan – Parte 2 de 2

Posted by on outubro 14, 2011

Algumas obras do bruxo Levitan – foto de Thais Brandão

Nessa segunda parte da entrevista, Cláudio Levitan nos explica como conseguiu se formar como um artista multifacetado, atuando como músico, desenhista e escritor. Além disso, ele nos conta como a arquitetura, disciplina em que é Mestre, se relaciona com seus livros infantis.

E o Porto Alegre no livro das crianças perdidas (Artes & Ofícios), como surgiu?

A Elaine Maritza, da editora Artes & Ofícios, me encomendou um livro infantil sobre Porto Alegre, mas não um livro histórico, até porque eu não sou metido a historiador. Eu fiz arquitetura e estudei muito a cidade, e também já tinha vários trabalhos ficcionais sobre o tema, mas o que eu queria mesmo fazer era justamente o que a Elaine me pediu: ficar livre para inventar toda a história.

A ideia era instigar na criança a questão do espaço da cidade e o reconhecimento dela dentro desse espaço, do bairro onde mora, da praça que freqüenta, a relação com o centro…

Eu peguei esse tema e parti da história de um menino que tenta voltar para casa, aí ele dorme dentro do ônibus, perde a parada, acaba no final da linha, e precisa então entrar de novo na cidade. Nessa tentativa ele vai encontrar uma bruxinha que também enfeitiçou outros colegas dele, eles vão enfrentar um ônibus voador, enfim, vão viajar com uma fantasia toda, tentando descobrir onde está a cidade. Aí essa bruxinha explica a eles que a cidade não nasce de um ovo ou da barriga de uma pessoa, e representa num dia toda construção da cidade. A criança vai enxergando a cidade crescer.

foto de Thais Brandão

Há também outros desafios. Em determinado momento, eles correm o risco de serem transformados em pedras, pedras como essas que a gente encontra em volta do [lago] Guaíba. Essas pedras, na realidade, seriam ovos de tartarugas gigantes, e as crianças que não soubessem ler ficariam presas lá dentro. Eu costumava visitar escolas públicas na periferia de Porto Alegre, falando sobre o livro O Porão Misterioso. E uma das coisas que eu observava era uma pobreza material, escolas gradeadas, bibliotecas com poucos livros, crianças que não conhecem uma biblioteca em casa, que não têm o hábito da leitura. Então inseri no livro a reflexão de como é libertador o hábito da leitura.

E onde tu buscou essa mitologia?

Tudo da minha cabeça, mas baseadas em construções históricas e mitológicas. Por exemplo, uma das histórias que fazem parte do livro é a história da Obirici, que é uma lenda recorrente no meu trabalho, uma lenda poética muito linda.

Tu pesquisas isso?

Olha, eu não sou sistematicamente um pesquisador…

Então, de que fonte tu bebe?

Uma das coisas que me ajuda é que eu fui arquiteto – hoje eu me considero um ex-arquiteto – e urbanista, envolvido com a história da cidade. Então eu li muito sobre a história da cidade com interesse pessoal e também pela questão da profissão, que instiga na gente a questão de como a cidade cresce. Todo o processo de crescimento de uma cidade está ligado à arquitetura e ao urbanismo, que foram áreas de estudo nas quais eu me especializei. Fiz mestrado, inclusive, em habitação popular, ou seja, projetos habitacionais de governo, e aí eu li muito sobre essas políticas, desde as políticas inglesas, fazendo a comparação com políticas brasileiras.

Fiz minha tese baseada na história da Carolina Maria de Jesus, do livro Quarto de despejo, que é um livro muito importante. Lá por 1961 ele foi um best seller, é um diário de uma favelada. É um fato histórico importante no Brasil. Ela chegou a escrever um segundo livro chamado Casa de alvenaria.

Na minha tese eu usei a história dos três porquinhos para fazer uma comparação entre algumas crianças africanas e nossas crianças. Esse grupo de crianças africanas, de uma determinada tribo sobre a qual eu tive acesso um documento de um pesquisador inglês, aprendem a construir suas próprias casas em tribos e a própria vila, porque eles são nômades, toda vez que eles se deslocam eles reconstroem a estrutura social deles. Todo mundo aprende a construir sua casa e sua cidade juntos. Uma criança então ali sabe como se resolve esse problema habitacional. Nós não. A gente só sabe, quando pequeno, que se uma casa não é de alvenaria, o lobo desmancha essa casa.

Essa é uma discussão político-ideológica também, quer dizer, a solução é capitalista ou é uma solução de estado? É o estado que resolve ou o mercado? Em certo sentido, essa lenda mostra que, se tu comparar o lobo com o mercado, se tu não estiver estruturado, o mercado acaba contigo.

Nessa história, eu queria comentar que a Carolina Maria de Jesus faz um processo semelhante: ela tinha um casebre onde morava, e quando ela tem a primeira condição econômica, ela logo realiza seu sonho: ter uma casa de alvenaria, que é uma casa mais consistente e que tem um patrimônio de continuidade, quer dizer, isso passa para o filho… Esse é o mundo sobre o qual eu refletia…

Mas esses dias atrás eu estive pensando que, mesmo fazendo uma tese numa universidade inglesa, eu usei a história infantil para fazer uma referência científica. A literatura infantil sempre foi uma constante na minha vida.

E a respeito das tuas outras qualidades artísticas? Uma coisa que impressiona qualquer um é a tua capacidade de trabalhar em diversos universos culturais, atuando, compondo, escrevendo, desenhando… Como nasce um artista multifacetado assim?

Posso dizer que a minha escola é aquela casinha da minha infância, aquele mundo em miniatura que meus tios e meus pais nos ajudavam a construir enquanto brincávamos. Nessa casinha, minhas tias pintavam quadros inspirados em coisas como A Branca de Neve e os sete anões, e ali fui aprendendo a desenhar. Outra tia minha era cantora lírica, foi ela quem me ensinou canto. Um tio era marceneiro e cientista, outro era um leitor contumaz, do qual herdei grande parte da biblioteca. E minha mãe era alguém que tinha a qualidade maior do artista, essa capacidade de fazer qualquer coisa com muita objetividade, empenho e rapidez. Porque é o tempo que te faz resolver as coisas. Assim é o teatro: tem uma hora para acontecer, um horário para começar e outro para terminar, e é nesse meio tempo que tu tens que fazer tudo dar certo. Então é preciso aprender a ser menos rigoroso: eu não sou um grande desenhista, não sou um grande músico, nem sou um grande arquiteto, eu trabalho nas três áreas para construir uma outra coisa.


Mas é claro que nem sempre vi essas coisas com tanta tranqüilidade. Durante muito tempo me considerei um anômalo. Eu me censurava por não me especializar em nada. Inclusive, num determinado momento, eu decidi me especializar em arquitetura: vou fazer um mestrado [em habitação popular, na Universidade de Newcastle – Inglaterra]. Sofri demais com isso, porque era uma restrição tremenda a tudo. O meu sonho, enquanto eu lia pilhas de livros técnicos, era fazer uma música como Saudosa Maloca, do Adoniran Barbosa, uma canção que conta toda a questão da favela brasileira. Isso é o que chamamos de canção popular.

Agora eu vou pedir para que tu fale sobre algum livro que tenha te influenciado recentemente, alguma dica para nosso leitores.

Recentemente encontrei alguns textos do Gaston Bachelard que me encantaram, mas isso já está mais ligado à filosofia. Eu sou mesmo um grande admirador da obra Harry Potter. Na minha opinião, a saga vai se tornar um dos clássicos da literatura infantil ad infinitum… Daqui a 200 anos, vão percorrer essa obra como um grande clássico, porque são 3.500 páginas de uma saga que consegue juntar mitologia céltica, greco-romana, tradições místicas e o mundo moderno de uma forma laica. E, ao mesmo tempo, consegue mostrar essa guerra permanente que o mundo vive entre os bruxos das trevas e os bruxos da luz. Em certa sentido, podemos dizer que são os humanistas contra o que poderíamos chamar de “anti-humanos”…

Me dê um exemplo disso dentro da obra.

Há um momento no fim da saga em que um menino, o Neville, vai dar um discurso. Toda a audiência pensa que ele vai mudar de lado, então ele diz algo assim: “todo mundo morre, os pais, os amigos, todos morrem, o Harry Potter também morreu, mas a diferença é que ele mesmo assim continua aqui comigo”. Ou seja, o “outro” está comigo, esse “outro” passou algo para mim, uma coisa importante. Essa é uma continuidade importante da humanidade. O Hitler, por exemplo, elimina a seqüência de memória, ele destrói o “outro”, ele apaga isso. E todo fascista que chega no poder tem como primeira ação destruir livros, destruir a comunicação e destruir o “outro”, e não construir com o “outro” qualquer coisa que seja.

Além disso, Harry Potter me encorajou também na questão da imaginação e da literatura clássica infantil. Ou seja, a Rowling [J. K. Rowling, autora da obra] retoma esse caminho e reafirma que é um caminho interessante a seguir.

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