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Resenha: Memórias de um gigolô

Posted by on setembro 22, 2011

O post de hoje é mais uma colaboração da escritora Simone Saueressig. Leitora sensível e resenhista de mão cheia, entreguei à Simone uma cortesia vinda da Global Editora que chegou em nossa loja, mas pedi em troca uma resenha. Presente de grego? Leia abaixo e descubra.

Estou lá eu sentada com pose de leitora em plena Casa de Cultura Mário Quintana, apreciando a boa temperatura e ignorando ostensivamente os andaimes da reforma, quando me aparece Alexandre também com livro em punho. Nos cumprimentamos, nos apresentamos, sentamos de novo. Afinal de contas, este é um dos primeiros encontros que marco pela internet! Estou ficando moderna e fresca, minha água mineral, contra o café dele. Conversa vai, conversa vem, meio entrevista, meio bate-papo, e daí, a proposta indecorosa: quer resenhar um livro para a gente? É para a Letras & Cia., estamos preparando um catálogo que também é um revista, enfim, um apanhado de sugestões para os leitores indecisos escolherem uma boa companhia para passar o tempo. Que tal?

Olho para o livro que ele tem nas mãos com um sorriso que chega a ser verde, de tão amarelo. “Memórias de um gigolô”. Mas como é que eu vou ler um livro que se chama “Memórias de um gigolô”, meu Deus do céu? Só pode ser sacanagem. Do autor. Do Alexandre. Da vida. A capa com tarjas rosa choque e negras, uma mulher seminua, lembrando aqueles inferninhos que se vê em filme, eu, pelo menos, só vi em filme. Talvez. Lembro de alguns lugares pelos que passei, enfim, deixa para lá, não vale a pena, nem foi tão emocionante assim. E o nome do autor, meu Deus, Marcos Rey, quem será esse sujeito?

Desmemória desvairada, ainda bem que amnésia não dói!

Pra começo de conversa, tenho eu a obrigação de saber quem é Marcos Rey. Se não ter lido, pelo menos de saber quem é. Pois não é do meu tempo aquela coleção, essa sim imortal, “Vagalume”? Quantos menininhos de fala anglo-saxã desejarão, ali adiante no passar dos anos, ser tão lembrados quanto o é a velha coleção dos meus tempos de criança? Mas não sejamos venenosos. Pois Marcos Rey é autor de “O mistério do 5 estrelas” e “O rapto do garoto de ouro”! Pasmada, porém não convencida de todo, sigo a lista dos que a Global editora vai editando “Soy loco por ti, América”, “Ópera do sabão”… tá, tá, já vou me situando um pouco melhor. “Memórias de um gigolô”, afinal de contas, já foi minisérie da TV, coisa que, infelizmente, não fez parte da minha cultura televisiva.

Abro o livro ainda desconfiada – o seguro morreu de velho – esperando a todo instante aquela cena tórrida, aquele cafajeste odioso. O melhor dos livros é a surpresa, pois não? Esperar uma coisa e vir outra. Certo é que quando muito se espera e pouco se obtém, dá mais vontade é de jogar o livro pela janela. Mas quando se espera pouco e ele se revela muito, dá vontade é de se jogar dentro dele, como se isso fosse possível.

Pois foi isso que aconteceu. Afinal, não dizem que o caminho para o coração de uma mulher passa pelo riso? Então: ri e fui conquistada. Imediatamente, sem precisar passar à página dois. Pois é isso o que alinhava a prosa relax do autor, a cafajestice incurável do personagem: a conquista pelo riso. A prosa fácil de ler, a impressão de se estar ali na mesa do bar conversando com o sujeito, com o sem-vergonha desbragado que é Tumache, amigo da boa conversa, do bem comer, do bem beber, do bem gastar. Trabalhar não é com ele, só dá o braço a torcer quando a coisa está feia mesmo. Golpista, golpista, não vale nada, nem o sal que come ou as calças que veste – quando não as tem desvestidas pela boa causa do próprio bolso. Mas assumido, honesto: Tumache, o personagem título, o gigolô, explorador de mulheres, de homens, do que aparecer pela frente.

O enamorado de Lu.

A maravilhosa Lu, a Virgem, a Bailarina Mascarada, cantora, stripper, prostituta, dona de casa, esposa, amante, boa gente. Grande coração. Lindas pernas. Rebolado incomparável. Companheira de todos os momentos, todos mesmo. Mesmo os ruins. Sobretudo os ruins.

O casal perfeito de golpistas, de amantes. Parceiros mesmo. As duas pontas de um triângulo.

Na outra, o Valete. Perdão, o Esmeraldo. Gigolô. Empresário da noite. Polícia. Ladrão, especializado na Lu dos outros. O vértice do triângulo.

É nesse eterno ménage à trois entre Tumache, Lu e Esmeraldo, que Marcos Rey constrói uma história que leva o leitor do Brasil dos anos 30, até a fronteira com os 60. Ou melhor, da São Paulo dos anos 30, à dos anos 60, com uma prosa balançada, divertida, despreocupada, e sobretudo, apaixonada. Pois o mais bonito do livro é ver como essa paixão emerge das entrelinhas, da safadeza, da insensatez dos personagens, até revelar-se nua e crua, já no inverno de suas vidas, quando os finalmentes começam a cobrar a sua conta. Sozinho no mundo, armado apenas com um baralho de velhas cartas de tarô, herdadas de sua “tia”, Tumache vai crescendo de golpe em golpe, de sorte em sorte, de azar em azar, construindo aqui para deixar ruir ali, como se a vida fosse um castelo de areia feito para ser tragado pelas ondas. Mas um castelo que, sem a sereia que lhe dá vida, não tem razão de existir.

Foi simplesmente impossível não ouvir aqui e ali, o “Vai trabalhar vagabundo”, do Chico, as “Saudades da Amélia” do Ataulfo e do Mário, a ópera do malandro inteira, as canções do Billy Blanco, as do Noel Rosa, a voz da Aracy de Almeida. Cresci ouvindo-os. Todo mundo da minha geração ouvia Os Novos Baianos e eu continua a cantarolar “meu cortinado, é o vasto céu de anil e o meu despertador é guarda civil – que o salário ainda não viu!”. Está tudo lá, basta sentar, abrir o livro e deixar rolar – as letras sob os olhos, a vida, entre os parágrafos.

Termino o livro num domingo à tarde, meio gris, querendo ficar frio, mas sem muito esforço. Olho para as ruas burguesas que me cercam, limpas, vazias, ilusoriamente seguras. A TV despeja aquelas notícias que a gente diz que gostaria de não ver, mas que não perde. Que ouve e sacode a cabeça. Onde vamos parar? Pergunto. Não vamos, responde a mãe, ao lado, costurando. O celular toca, a rede reclama minha atenção. Eu suspiro, condoída e volto ao mundo real. Não há mais malandros como antigamente. Nunca mais haverá. Não há lugar para eles, até a malandragem se profissionalizou. Até o fazer nada virou terapia necessária nestes dias de atropelo .

Malandro de verdade eram esses Tumache da vida, que não conheciam outra coisa senão a bravata e o verdadeiro nadismo. Que não amavam outra coisa além de si mesmos. E que, sem a menor vergonha, se apaixonavam pela mulher da sua vida uma vez para sempre. No vagar dos dias, todas as mulheres são ilusões. Somente a amada é real.

*Simone Sauressig é escritora e professora de dança. Clique aqui para ler seu perfil e aqui para acessar seu blog.

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