Não foi difícil reconhecer Simone Saueressig: era a única a ler um livro nas mesas do café onde marcamos nossa entrevista. Tenho certeza de que se meu tímido aposto “Simone?” fosse um pouco mais tímido, já não seria suficiente para resgatá-la das páginas que lia. Seguimos conversando e só algum tempo depois vi que seus olhos finalmente voltavam do mundo onde estava imersa, até o momento em que era inquestionável sua absoluta presença no aqui-e-agora. Também pudera, estávamos ali falando de um amor antigo: os livros.
A literatura
Simone sempre foi curiosa em relação à literatura, principalmente em relação à fantasia, ficção científica e horror. Natural de Campo Bom, ela cresceu em Novo Hamburgo, onde vive atualmente. Se hoje o Brasil é um país que edita pouca literatura de gênero, podemos imaginar como era o acesso a esses objetos numa cidade do interior nos anos 1980.
“Comecei a ler O senhor dos anéis em meados dos anos 1980, numa edição que diziam ser pirata, comprada numa feira”. Se encontrar O senhor do Anéis para começar a lê-lo já foi uma dificuldade, Simone explica que continuar foi ainda mais difícil. “Cada livro tinha sido editado em dois tomos, li os dois primeiros que comprei na feira e me apaixonei, aí comecei a buscar os volumes restantes, mas não encontrava de jeito nenhum.” A leitura só pode ser concluída quatro anos depois.
Começando a escrever
“Terminei O senhor dos anéis numa madrugada, chorando porque estava se acabando aquele livro que tinha sido por um bom tempo meu companheiro, aí pensei que poderia fazer também um livro de fantasia, mas usando a nosso próprio folclore”, ela explica. Mas, mesmo estimulada a escrever, Simone inicialmente não tinha como ideal se tornar uma escritora: “meu plano secreto era que algum grande escritor lesse meu livro e percebesse que era possível fazer uma grande história com nosso folclore e cenários e, aí sim, escrevesse um grande livro”.
Foi imbuída desse espírito que a autora criou A noite da grande magia branca, livro que foi editado pela editora Kaurup em 1991, quando ela tinha apenas 18 anos. Simone continuou trabalhando com a própria editora, onde estreitou seu relacionamento com o ato de escrever. Hoje ela já conta com 16 livros lançados.
Processo criativo
Simone é professora de dança, atividade com a qual precisa conciliar seus horários de escrita. Ao contrário de alguns escritores, que acham escrever um processo custoso e extenuante, a autora desfruta de seus momentos de criação. “Escrever é bom, ruim é esperar para ver o livro publicado”, aponta ansiosa para ver suas criações se materializaram.
Num tempo em que as oficinas de criação literária não eram moda, Simone aprendeu por tentativa e erro a construir seus textos, contando com leitores próximos que pudessem aprontar defeitos e qualidades do que produzia. Com o tempo, zines e revistas de ficção científica passaram a pipocar, como o Boletim Antares, e então se abriu um novo campo para compartilhar seus textos com leitores curiosos.
Para a autora, o leitor faz parte do texto, a leitura é o momento que completa a criação. “Sempre que vou dar palestra em alguma escola, digo para as crianças que elas são minhas colegas de trabalho, elas riem da brincadeira, mas não deixa de ser verdade”, assim a autora explica sua relação com os leitores.
Para saber mais, acesse o site Porteira da Fantasia e descubra mais sobre a autora.
*A imagem desse post foi captada do site da escritora.