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Quatro livros sobre João Gilberto

Posted by on agosto 10, 2011

Está confirmado: João Gilberto virá mesmo ao Rio Grande do Sul em 2011. O espetáculo está marcado para o dia 25 de novembro, no Teatro do Sesi, em Porto Alegre.

O octagenário cantor e violonista divide opiniões por onde passa: gênio ou chato, poucos escapam de lhe dar um rótulo. Mas se você não está interessado em dar a ele um rótulo fácil, estão aqui quatro títulos que vão lhe fazer refletir sobre a obra desse ícone da música popular. Não só fizemos uma seleção de livros mais interessantes sobre João como também selecionamos alguns trecho para você. Curta, mas não esqueça: o fundamental mesmo para entender João  é colocar um disco seu na vitrola para girar.

João Gilberto, de Zuza Homem de Mello (Publifolha, 128 pp, R$ 18,90)

Esse é um livro básico para quem quer desvendar a carreira de João Gilberto. Além de uma sucinta – porém sólida – biografia, é possível entender o contexto em que o artista desenvolveu seu trabalho. O vasto conhecimento musical do autor Zuza Homem de Mello também consegue sintetizar em palavras as peculiaridades da voz e do violão do mestre, coisa que certamente vai enriquecer sua próxima audição do intérprete.

Trecho:
“Quando um cantor se serve do violão para se acompanhar – um seresteiro como Sílvio Caldas, por exemplo -, ele tem no instrumento um complemento para sua voz, um guia para não se perder na afinação e na linha melódica. O instrumento é mais importante para ele do que para a maioria da platéia. Para a platéia, o violão está em segundo plano.

Em João Gilberto, o violão é metade de um conjunto sonoro completado pela voz, formando um bloco, uma entidade unívoca de voz e violão, e não de voz com violão. É portanto um outro conceito, representado por dois timbres diferentes, o da voz humana e o das cordas do violão, formando um terceiro timbre, que, por sua vez, exige uma capacidade de atenção absoluta.”

Chega de saudade, de Ruy Castro (Cia das Letras, 464 pp, R$ 66,00)

Eterno cronista carioca, Ruy Castro aponta nesse livro para as noites de boemia que acabaram gestando e dando à luz a bossa nova. Além de João Gilberto, Chega de Saudade narra aventuras e desventuras de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Nara Leão, Carlinhos Lyra, Ronaldo Bôscoli e muitos outros que marcaram a história da música popular brasileira. São páginas de uma prosa deliciosa capaz de remontar ao leitor todo o cenário em que João Gilberto se encaixou ao chegar de Juazeiro (BA) e o modo como este o revolucionou.

Trecho:
Para Menescal, se aquele era João Gilberto, o nome de seu ex-professor Edinho era dispensável como recomendação. Ele já ouvira falar em João Gilberto — e, no meio dos jovens músicos cariocas nos últimos meses, quem não? Sabia que se tratava de um baiano meio louco e genial, fabuloso no violão, cantor afinadíssimo e que às vezes aparecia no Plaza. Convidou-o a entrar. João Gilberto atravessou as dezenas de convidados como se eles fossem feitos de vapor — da mesma forma, ninguém o viu — e foram para um quarto dos fundos. Não disse mais nada. Apenas examinou o violão, afrouxou uma ou duas cravelhas, testou o prolongamento das notas e cantou “Hô-ba-la-lá”, sua própria composição.

A voz de João Gilberto era um instrumento — mais exatamente, um trombone — de altíssima precisão, e ele fazia cada sílaba cair sobre cada acorde como se as duas coisas tivessem nascido juntas. O que era espantoso, porque o homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade, não parecia cantar — dizia as palavras baixinho, como Menescal já ouvira outros fazendo. Mas ele sentia que João Gilberto, se quisesse, seria capaz de se fazer ouvir lá na sala, com ou sem a festa. João Gilberto cantou “Hô-ba-la-lá” cinco ou seis vezes, com mínimas alterações, mas cada versão parecia melhor do que a anterior. E que diabo de ritmo era aquele que ele fazia? Menescal não resistiu. Pegou-o pelo braço, com violão e tudo, e saiu com ele pela noite. Ia exibi-lo aos amigos.

Noites tropicais, de Nelson Motta (Objetiva, 462 pp, R$ 63,90)
Se “Chega de Saudade” se restringe ao Rio de Janeiro da décadas e 1950, Noites Tropicais vasculha mais de quatro décadas de música popular brasileira. Nem por isso podemos dizer que este é um livro mais pretensioso, na medida em que se restringe – e isso não é pouco (!) – a ser quase uma autobiografia do produtor musical Nelson Motta.

Devoto confesso do cantor, Motta inicia e termina seu livro falando de João; e, a cada nova fase de sua própria vida, trata de buscar um comparativo por onde andava o baiano. Além disso, o livro narra encontros seus e de amigos com o músico ermitão. No fim, Noites Tropicais é um belo panorama da música popular brasileira pós 1950 em paralelo à obra de João Gilberto.

Trecho:
Os bossanovistas cariocas adoravam jazz, cool jazz, Chet Baker, Stan Getz, Dave Brubeck e Paul Desmond, Miles Davis, Bill Evans, Stan Kenton, tinham ótima  formação jazzística, gostavam de improvisar e de harmonizações complexas, seus ídolos eram jazzistas, agiam como jazzmen, não tocavam musica brasileira. Pelo menos até a descoberta da bossa nova.

Mas João Gilberto, que tinha começado tudo, tinha muito pouco a ver com tudo aquilo.

João era baiano, sua música era brasileiríssima e nela não havia espaço para improvisações. Pelo contrário, exigia uma constante elaboração e lapidação, extremo rigor e precisão na busca da simplicidade absoluta. As harmonias complexas do jazz encontravam no violão de João dissonâncias e sequências semelhantes, seus acordes pareciam ser os mesmos. Só que em lugares diferentes. Estavam onde não deveriam estar e por isso soavam tão bonitos e surpreendentes – e tão naturais. Seu domínio do ritmo e das divisões, seu suingue sincopado, seu fraseado seco e preciso, a sincronicidade entre voz e violão, tudo em João levava ao rigor e à disciplina, ao fundo do Brasil. E ao gênio.

Hobalala – auf der Suche na João Gilberto, de Marc Fischer
Como você pôde perceber pelo título (algo em português como “Hobalala – à procura de João Gilberto”), esse é um livro alemão que ainda não tem uma versão em nossa língua. Mas, mesmo lançado em 2011, esse já é um dos livros mais badalados sobre o artista baiano. Escrito pelo repórter Marc Fischer, jornalista-celebridade da Alemanha, Hobalala apresenta em prosa poética a viagem de cinco semanas do autor ao Brasil na busca de encontrar João Gilberto. Como já era de se esperar, o encontro não aconteceu, mas Fischer conheceu e entrevistou vários personagens chaves da bossa nova, bem como familiares de João.

A morte inesperada do autor com apenas 40 anos, em abril de 2011 (poucos dias antes do lançamento do livro), colaborou para aumentar ainda mais o clima de mistério que sempre ronda a personalidade de João Gilberto. Os leitores brasileiros aguardam uma tradução do livro para ver como se parece toda a história do celebrado intérprete nacional encarada por olhos estrangeiros.

Techo:
O grande, velho Roberto Menescal estava sentado em sua enorme escrivaninha e tocava seu violão quando eu cheguei. Ele trajava uma jaqueta do exército e uma barba branca e se parecia demais com Ernest Hemingway. Assim como ele, Menescal antigamente também ia com seus amigos da Bossa Nova para o mar e pescavam um peixe atrás do outro. João Gilberto nunca se fazia presente nessas viagens. Ele odeia o mar. Não toma banho nele, não nada, não veleja…

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